A Separação, poderoso filme iraniano ganhador do Oscar, no ciclo Na Mira do Oscar

por max 24. fevereiro 2014 10:34

 

Em A Separação (Jodaeiye Nader az Simin, 2011), do cineasta iraniano Asghar Farhadi, vemos um casal de origem da pequena burguesia que entra em conflito. Ela, Simin (Leila Hatami), não quer continuar vivendo em seu país, deseja para sua filha um mundo melhor, mais moderno. Ele, Nader (Peyman Moadi), tem um pai idoso e com Alzheimer; acredita que não podem ir. O casal decide pedir ajuda a uma espécie de juiz de paz que parece ter muito mais poder que os que conhecemos no ocidente. O juiz diz que não há razões suficientes para partir. Simin, com raiva, abandona o marido e a filha. É aí que aparece Razieh (Sareh Bayat), uma mulher muito religiosa de classe baixa. Razieh está grávida e trabalha sem o consentimento do marido. Nader, solitário e chefe de família, a contrata para cuidar de seu pai. Um dia, o velho foge e Razieh terá que ir atrás dele, fugindo da multidão, nervosa. Ao encontrá-lo, ela o amarra na cama; até que Nader chega. Razieh é demitida, mas depois volta exigindo o pagamento pelo trabalho realizado. Nader se nega a pagar e, na discussão, ela cai da escada. Ela sofre um aborto e culpa Nader, diz que ele a empurrou. E então começa um processo legal e não tão legal que tem a ver com a culpa do aborto. Quem é o culpado? Seria Nader em sua fúria ao demiti-la, o marido violento ou alguma outra coisa que não sabemos? É possível negociar? O que vale mais, a crença religiosa, a verdade ou o dinheiro?

Sob a batuta de uma direção firme e que não busca efeitos e nem sentimentalismos baratos, A Separação apresenta um interessante ponto de vista sobre a cultura iraniana, sobre a religião, a tradição familiar, a moral e a modernidade se misturando sobre as vidas das pessoas deste país, gerando, muitas vezes, conflitos complexos que parecem não ter nenhum sentido, mas que atormentam a alma de quem os sofrem. Em outras partes, em outros países, sem dúvida, pessoas vivem vidas que não imaginamos.

A Separação, ganhador de três Ursos de Ouro em Berlim, um Globo de Ouro e, claro, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2012.

Aproveite este poderoso filme, segunda, 24 de fevereiro, dentro do ciclo que faz uma prévia aos prêmios da Academia, Na Mira do Oscar, no Max.

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Tão Forte e Tão Perto, drama de Stephen Daldry, dentro do ciclo Na Mira do Oscar

por max 22. fevereiro 2014 03:32

 

Tom Hanks, Sandra Bullock, Max von Sydow, Viola Davis, Jeffrey Wright e John Goodman, todos eles acompanham o pequeNo Thomas Horn em Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud And Incredibly Close, 2011), filme dramático e poderoso dirigido por Stephen Daldry, que fará você estremecer e derramar lágrimas. Daldry é um famoso diretor britânico muito talentoso, autor de filmes importantes como Billy Elliot (que deu a indicação ao Oscar para Daldry como melhor diretor), As Horas (The Hours – que fez Nicole Kidman ganhar o Oscar de Melhor Atriz e Daldry o Globo de Ouro como Melhor Filme Dramático) e O Leitor (The Reader – que fez Kate Winslet ganhar o Oscar de Melhor Atriz).

Neste filme, Daldry se baseia no romance homônimo de Jonathan Safran Foer, um jovem romancista de origem judaica, que teve sucesso imediato com a publicação de seu primeiro livro, Uma Vida Iluminada (2002), a história de um garoto que viaja dos Estados Unidos para a Ucrânia atrás dos passos da mulher que salvou a vida de seu avô na Segunda Guerra Mundial. O romance foi levado ao cinema em 2005 pelo ator e diretor Liev Schreiber. Em 2011, Safran Foer viu mais uma de suas obras na grande tela, o filme em questão.

Tão Forte e Tão Perto apresenta a história de um garoto que sai em busca de algo, neste caso de um segredo: seu pai morreu no atentado de 11 de setembro no World Trade Center, em Nova York, e este garoto chamado Oskar encontra, tempos depois, uma chave em um envelope escrito "Black". Aos nove anos, Oskar é um menino muito especial –provavelmente tem a síndrome de Asperger-, é muito sensível a ruídos, ao mundo externo em geral. Contudo, decide sair às ruas e decifrar o mistério da chave e da palavra. Mas antes de sair ele faz um plano: começa a marcar regiões em um mapa da cidade e nesses lugares indica todas as pessoas de sobrenome Black. Em certo momento, a sua aventura o unirá a seu avô, interpretado pelo maravilhoso Max von Sydow. Enquanto que em casa, conheceremos os silêncios e as angústias (e outras coisas) da mãe de Oskar, interpretada por Sandra Bullock (a esta altura, imagino que devem supor quem interpreta o pai morto). Em seu caminho, Oskar vai conhecendo personagens muito particulares, que vão mostrando aos espectadores uma ampla gama da beleza, a tristeza e a ternura do gênero humano.

Este maravilhoso filme, também dirigido por Daldry, conta com a produção de Scott Rudin, que também produziu a versão americana de Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo), O Homem Que Mudou o Jogo (Moneyball) e A Rede Social (The Social Network). Uma equipe tão eficaz deu à produção a indicação ao Oscar de Melhor Filme (como sabemos, é indicado o produtor, ou seja, Scott Rudin), e de Melhor Ator Coadjuvante para Max von Sydow.

Tão Forte e Tão Perto, dentro do ciclo Na Mira do Oscar, quarta, 26 de fevereiro, no Max.

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O Barco da Esperança, drama sobre a imigração africana, exclusivo no Max

por max 21. fevereiro 2014 12:23

 

O filme O Barco da Esperança (La Pirogue, 2012), de Moussa Touré, é dedicado aos mais de 5000 senegaleses que tentaram atravessar o mar e que morreram em busca de um destino melhor.

Porque é disso que este filme de Touré fala, é a história de cerca de 30 pessoas que tentam ir do Senegal à costa Europeia, especificamente para a Espanha, o que gera um forte drama, cheio de emoção e de momentos complexos que nos mostram as dificuldades e a audácia daqueles que não aguentam mais sua situação de pobreza e estão dispostos a arriscar a própria vida para ter um futuro melhor.

Piroga é o nome de um barco, uma canoa, e é a embarcação na qual as pessoas saem de Dakar, capital de Senegal. O capitão é Baye Laye (Souleymane Seye Ndiaye), um marinheiro experiente e pai de família que foi obrigado a participar desta arriscada ação por necessidades próprias. Entre os passageiros está o irmão mais novo de Baye Laye, outro jovem que quer ser jogador profissional de futebol, um velho líder de uma tribo com um grupo de agricultores, um homem sem perna que quer trabalhar para comprar uma prótese e uma mulher, Nafy (Mame Astou Diallo), que vai em busca de seus filhos.

Claro, a aventura é arriscada desde o início. Ao longo da viagem haverá tensões sexuais, lutas de poder, tempestades (passageiros que caem e que não sabem nadar e, portanto, se afogam) e até o encontro com outras embarcações em situações piores, sem comida nem água.

O filme, de qualidade narrativa impressionante, ganhou vários prêmios internacionais, entre eles, Un Certain Regard, do maior festival de cinema do mundo: o festival de Cannes.

O Barco da Esperança, domingo 23 de fevereiro, exclusivo no Max. O que você vê quando vê o Max?

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Pina, documentário de Wim Wenders indicado ao Oscar, continua o ciclo Na Mira do Oscar

por max 20. fevereiro 2014 13:46

 

Pina Bausch foi uma das coreógrafas mais importantes dos nossos tempos, a precursora do que chamamos de dança-teatro. Fundadora do célebre Tanztheater de Wuppertal, abriu novas portas da expressão corporal onde se fundiram o sexo, a dor, o amor e o delírio sobre cenários que buscavam romper o limite entre os palcos e a paisagem urbana.

Pina Bausch, mulher fascinante e fumante inveterada, foi o foco das lentes de diretores como Felini, Almodóvar ou Wim Wenders. Wenders é o diretor de Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin, 1987) e de Tão Longe, Tão Perto (In Weiter Ferne, So Nah, 1994), histórias sobre anjos que comoveram a todos; autor também de obras como O Amigo Americano (Der Amerikanische Freund, 1977), com Dennis Hopper, baseado no famoso romance de Patricia Highsmit; Paris, Texas (1984), com roteiro de Sam Shepard e atuação de Nastassja Kinski; e também de Buena Vista Social Club (1999), documentário que fez com o guitarrista Ry Cooder e com o produtor Nick Gold, e que resgata do esquecimento um grupo de músicos cubanos. Em 2011, Wim Wenders continuou seus caminhos musicais ou artísticos com Pina, que foi indicado ao Oscar como Melhor Documentário em 2012.

Pina não é exatamente um documentário. De fato, a artista morreu durante o processo de realização. Pina é parte documentário e parte teatro-dança fora dos palcos. O filme é constituído por quatro obras da coreógrafa realizadas nas ruas. O espírito desta fabulosa mulher percorre o trabalho com sua energia, com sua inteligência e suas intuições radicais. Claro, com a morte dela tão recente, há muitas recordações. Sem dúvida, uma obra-prima do cinema documentário que faz homenagem a uma artista fundamental dos nossos tempos.

Pina, de Wim Wenders, domingo, 23 de fevereiro, continuando o ciclo Na Mira do Oscar com filmes indicados e ganhadores do prêmio da Academia. O que você vê quando vê o Max?

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A Feiticeira da Guerra inicia o ciclo de oito dias em homenagem ao Oscar no Max

por max 19. fevereiro 2014 12:49

 

A partir de sábado, 22 de fevereiro, até sábado 1º de março, o Max faz uma prévia aos prêmios da Academia com o ciclo Na Mira do Oscar, filmes e documentários indicados e ganhadores do prêmio mais importante e glamouroso da indústria cinematográfica.

Você vai ver toda noite – Atenção: todas as noites! – durante oito dias, um filme diferente. A Feiticeira da Guerra, Pina, Tão Forte e Tão Perto, O Artista, A Separação, Cinco Câmeras Quebradas, À Procura de Sugar Man, Meia-Noite Em Paris e para finalizar, Escuridão.

 

O filme canadense A Feiticeira da Guerra (Rebelle, 2012), do diretor Kim Nguyen, vai abrir este magnífico ciclo que o Max traz para todos os amantes do cinema e do Oscar. A Feiticeira da Guerra foi indicado como Melhor Filme Estrangeiro e também ganhou o Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Berlim, e a jovem protagonista Rachel Mwanza ganhou o Urso de Prata de Melhor Atriz.

A história se passa na África, em tempos de caos e guerra, e nos apresenta Komona (Rachel Mwanza), uma jovem de quatorze anos grávida, que conta ao seu bebê, que ainda não nasceu, a história de sua vida. Tudo começou quando um dia "cães de guerra" a obrigaram a matar a tiros os seus pais. E ela teve que obedecer, porque se não fizesse eles atirariam nela, e então seus pais morreriam horrivelmente a facadas. A partir de então, conheceremos uma grande lista de infortúnios, ou melhor, de tragédias com alguns restos de beleza e inocência.

Em certo momento desta história ela sobreviverá ao massacre de um combate e, então, quem a rodeia a chamará de "feiticeira da guerra", uma espécie de talismã dos combatentes.

Esta garota, ungida com esse estranho mérito, será nossa guia através de todo o mundo cruel e terrível da guerra civil, ao mesmo tempo em que a conheceremos na transformação da adolescência para a vida adulta.

Em sua jornada sangrenta, Komona conhecerá um garoto albino que diziam ser um Mago. Cabe dizer que os albinos, entre alguns africanos, são seres, precisamente, mágicos, sagrados, e os bruxos os buscam para matá-los e usar seus ossos e cabelos como objetos de boa sorte. Com ele, Komona percorrerá um caminho em busca dos restos mortais de seus pais – que não descansam e aparecem constantemente como fantasmas – com a finalidade de lhes dar uma sepultura digna, que será o foco deste fascinante filme de Kim Nguyen.

A Feiticeira da Guerra, iniciando o ciclo Na Mira do Oscar, sábado 22 de fevereiro, no Max. O que você vê quando vê o Max?

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Ai Weiwei: Sem Perdão, ou o retrato de um artista

por max 17. fevereiro 2014 13:18

 

Ai Weiwei: Sem Perdão (Ai Weiwei: Never Sorry, 2012), da diretora Alison Klayman, é um documentário verdadeiramente inquietante sobre Ai Weiwei, o artista plástico mais polêmico da China, um ativista político que tem resistido a sair de seu país para lutar contra o governo e contra a violação dos direitos humanos no país.

Para realizar esse magnífico trabalho, Klayman acompanhou o artista por três anos. Ela e sua câmera são testemunhas da vida particular e pública do controverso homem. Eles o acompanham na supervisão de suas exposições e em seus trabalhos no estúdio - que logo será destruído por ordens do governo - acompanham a visita que ele faz ao filho que tem com uma mulher que não é sua esposa, e estão presentes quando ele enfrenta a polícia depois de ter apanhado da polícia na cabeça e quando faz atos provocadores para irritar aqueles que o seguem.

Ai Weiwei, cabe dizer, estudou nos Estados Unidos e voltou à China em 1996 devido à morte de seu pai, o destacado poeta contemporâneo Ai Quinq. Desde então, Ai Weiwei vive na China e não parou de fazer arte e política, pois a arte e a política andam de mãos dadas. Um exemplo: após o terremoto de Sichuan em 2008, fez uma instalação com nove mil mochilas, indignado e triste pelas crianças que morreram por causa das escolas mal construídas.

Foram tomadas medidas contra ele. E em 2011 esteve preso – desaparecido - por 81 dias. Seus mais recentes trabalhos artísticos são testemunhos deste terrível momento. Ele montou dioramas de sua prisão, onde aparece todo o tempo acompanhado por dois policiais, e realizou o CD The Divine Comedy, onde Ai Weiwei canta - acompanhado de seus respectivos vídeos (clique aqui para ver um dos vídeos), onde também denuncia toda a detenção.

Uma boa parte do que foi dito aqui está em Ai Weiwei: Sem Perdão, o retrato deste artista controverso, militante e talentoso. Entrevista com o próprio Ai Weiwei e uma boa variedade de entrevistas com amigos e conhecidos se juntam a momentos cheios de força e também de intimidade (a mãe, o filho mais novo) para compor este maravilhoso documentário que, em 2012, ganhou o Prêmio do Júri em Sundance, e que faz honra a este homem que não se cala e que não se arrepende de nada que tenha dito ou feito.

Ai Weiwei: Sem Perdão, terça 18, de fevereiro.

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Adeus Minha Rainha, ou os últimos três dias de uma monarca

por max 14. fevereiro 2014 04:34

 

Enquanto o mundo cai lá fora, Maria Antonieta vive em Versalhes, como se nada estivesse acontecendo. Os empregados vão e vêm por todo o palácio. Ouvem-se rumores, eles comentam entre si. Enquanto isso, a rainha se apaixona, escuta suas leituras, vive em seu mundo.

Recomendo de os olhos fechados o filme visualmente luxuoso Adeus Minha Rainha (Les Adieux À La Reine, 2012), um drama histórico dirigido pelo francês Benoît Jacquot. Jacquot é um diretor que trabalha muito e que tem quarenta títulos em seus créditos; neste caso, se inspirou no famoso romance da francesa Chantal Thomas, que fez a escritora ganhar o Prêmio Prix Femina em 2002.

Este magnífico filme de Jacquot relata um fato já conhecido por todos: a vida palaciana e tranquila dos reis da França no contexto da Revolução Francesa, mas, como já disse, a partir de um ponto de vista nunca utilizado antes, o dos empregados, principalmente de Sidonie Laborde, uma jovem garota cujo trabalho é ler romances e revistas para a rainha.

No papel de Sidonie temos Léa Seydoux, uma bela jovem atriz que em 2009 foi indicada ao Prêmio César na categoria de melhor atriz revelação por seu papel em A Bela Junie (La Belle Personne, 2008), de Christophe Honoré. Sidonie é a que permanece no palácio quando todos, empregados e cortesãos, deixam seus aposentos. E Sidonie realmente ama sua rainha e a monarquia, embora, claramente, vão cair.

Por outro lado, Maria Antonieta é interpretada pela bela atriz e modelo Diane Kruger. Kruger ficou conhecida em Hollywood por seu papel como a diva Bridget von Hammersmark em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009) de Quentin Tarantino. No entanto, na Europa já era muito conhecida, pois em 2003 já havia recebido em Cannes o Chopard Trophy Award, como revelação feminina do ano.

No filme também é fundamental o trabalho de Virginie Ledoyen, que interpreta a duquesa Gabrielle de Polignac, personagem histórica reconhecida como uma das mulheres mais bonitas da França naquela época; os rumores também diziam que Gabrielle de Polignac foi amante não só do rei, mas também da rainha.

Fofocas, tensão, paixão, drama e lealdade num filme visualmente agradável que recria com perfeição três dias de uma época fundamental da história da humanidade. De fato, para conseguir o máximo de exatidão nos cenários, Jacquot filmou a maioria das cenas no próprio palácio de Versalhes. E claro, a reconstrução da época foi tão boa, que o filme ganhou três prêmios César em 2013, de Melhor Fotografia, Figurino e Cenografia. Benoît Jacquot também concorreu ao Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim.

Adeus Minha Rainha, estreia luxuosa do Max, domingo, 16 de fevereiro.

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Homem em Chamas, ou o arbusto do herói

por max 11. fevereiro 2014 10:36

 

Um arbusto que arde, como aquele arbusto ou aquele espinheiro que apareceu para Moisés, é a imagem de Deus, do divino. Um espinheiro é uma coisa qualquer, não é bonito, não é soberbo, mas Deus o escolheu para se manifestar, porque através de seu simbolismo nos quer dizer que Deus pode estar em qualquer parte, até nas coisas ruins e mais insignificantes. Você é espinheiro, eu sou espinheiro, todos podem ser, pois todos estão a serviço de Deus, o que também quer dizer que estamos a serviço de algo maior. Ou seja, o espinheiro se despe de seu centro, de seu próprio eu e se lança para o fogo, se sacrifica pelos outros; aquele que foi escolhido por Deus para representá-lo, queima sem cessar, mas não se consome, não morre. Ou seja, seu fogo permanece, além de toda expectativa, além de toda lógica, de toda lei.

Pensar na minissérie Homem em Chamas (Hořící keř, 2013), produzida pela HBO Europa e dirigida por Agnieszka Holland, a cineasta polonesa mais famosa internacionalmente, faz perceber estes significados do arbusto. Jan Palach, aquele jovem estudante que em janeiro de 1969 queimou seu próprio corpo em uma manifestação pública contra a ocupação do governo soviético na Tchecoslováquia, se transforma, na minissérie de Holland, nesse arbusto que arde, que continua ardendo depois de consumido, depois de morto. A partir desse caso real começa a reconstrução histórica da diretora, que deve ter vivido aqueles terríveis anos de ditadura na própria pele. Holland segue a figura da jovem advogada Dagmar Burešová (Tatiana Pauhofová), que vai tecendo a trama dos familiares de Jan, que tiveram que defender a imagem do filho diante do poder político que pretendia manchar seu nome, sua ação e sua honestidade. Palach, esse jovem que esteve à altura dos deuses ao renunciar à sua vida é, sem dúvida, esse arbusto que ardeu em nome das ideias superiores, e que continuou ardendo porque, duas décadas depois, seu nome voltou a ser lembrado como inspiração para os estudantes e os cidadãos que começaram um movimento civil de protestos e contribuíram para a liberdade final de seu país.

Homem em Chamas é uma minissérie de três partes emotiva e cheia de intriga política, de humildade, coragem e luta, de luta pela liberdade, onde os vivos e os mortos se unem, se misturam e se juntam em cenários da verdade, da honra, da justiça e da coragem.

Homem em Chamas, a minissérie de Agnieszka Holland, a partir de quarta 12 de fevereiro, no Max.

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Marley, ou um documentário além do ídolo desejável

por max 10. fevereiro 2014 12:39

 

Quando a United Colors of Benetton nos mostrou rostos de diferentes raças, juntos numa mesma imagem publicitária, lembrei de Bob Marley. Marley foi o primeiro homem terceiro-mundista globalizado através da música, Marley, para mim, era do século XXI em meio ao século XX. Era mulato, filho de mulher negra com homem branco (mas seu pai também era jamaicano) e viveu o drama, exatamente por ser mestiço, de não ter um lugar certo no mundo. O homem de hoje, desejado pela publicidade e pelo ativismo, é um homem aparentemente universal. Seus traços são uma sobreposição indefinida criada por um jato global que nos envolve. Esse rosto, geralmente, é uma beleza do terceiro mundo, uma beleza exótica cujos traços mais marcados se suavizam no caldeirão da raça caucasiana. Keanu Reeves não é marcadamente do Oriente Médio, Marley não era marcadamente negro. Mas, aos olhos da civilização ocidental, Marley era negro, um negro pacífico, espiritual, xamânico e musical do terceiro mundo. Escreveu Roland Barthes em "Bichon entre os negros", texto que pertence ao livro Mitologias: "No fundo, o negro não tem uma vida plena e independente: é um objeto curioso; é reduzido a uma função parasitária: distrair os homens brancos com sua extravagância obscuramente ameaçadora". Talvez Bob Marley, para o pequeno burguês sobre o qual escreve Barthes, continue sendo ameaçador, mas, ao mesmo tempo, era possível olhar em seus olhos e ouvir sua música, podia ser menos ameaçador prestando-se atenção às suas letras: aquele homem exótico, caso manipulasse sua mensagem, acabou como um ser espiritual, mas também um guerreiro. Mas sua guerra era boa, sua guerra era a música. A música que eu gosto e que me transforma em uma pessoa preocupada com os direitos civis.

Marley, pra mim era assim: a glamourização do terceiro mundo e do guerreiro negro. Marley, no fundo, foi uma porta simplificada e "conveniente" de uma série de signos e abstrações que precisavam de concretização: rasta, reggae, amor universal, maconha mística, boa música, mar, sol... Não é ruim, sem dúvida, mas era necessário; eram os anos sessenta, imagens como as dele foram imperativas para acomodar inquietudes espirituais e conduzir o movimento político por igualdade. Mas Marley não foi um mero instrumento daquele momento. Marley transcendeu, sua música o superou e o transformou em lenda. Em nossos dias, esta lenda, este símbolo simplificado do negro espiritual e bonachão, ao mesmo tempo guerreiro e idealista, exige complexidade e profundidade, para que sua mensagem, ou melhor, seu verdadeiro significado universal toque a humanidade. É assim que surgem documentários como Marley (2012), de Kevin Macdonald (O Último Rei da Escócia - The Last King of Scotland), trabalhos sérios que buscam o corpo, a carne e o osso dessa foto pop que muitos jovens carregam estampada em suas camisetas. Essa pesquisa cumpre sua função, graças à cooperação da família Marley e de pessoas que estavam perto do ídolo. Não se trata, claro, de um ato de louvor, de uma apologia nem nada no estilo. Tampouco o trabalho cai na dinâmica entrevista / música / entrevista que todo documentário mal amarrado nos obriga a ver. Mcdonald realizou um trabalho minucioso, uma investigação real do ser humano que era Bob Marley e de seu legado como músico e, por que não, como pensador ativista do século XX.

Assistir às origens deste homem misto que foi Marley também é assistir aos inícios do reggae, gênero também misto que se separou do ska, quando entrou no jogo a fusão da música americana com estilos como o R&B, o Soul, o Motown e outros. Claro, o reggae não é só ritmo, mas também apoesia, e nas letras de Marley se reflete sua religião, esse outro equilíbrio que é o rastafári. O cineasta chega lá e mostra Marley em sua verdadeira dimensão: a do homem abstêmio e disciplinado que se exercitava, mas que consumia maconha, pois a maconha era parte do ritual da sua crença.

Claro, em algum momento, Marley o homem começa a se confundir com Marley o ídolo. A fama engole os homens, mas não a fama como um verme egocêntrico; Marley estava longe disso, sem a fama como uma máquina que não para, que te distancia das pessoas, da sua gente, às vezes de você mesmo, sem que isso tenha a ver com a idolatria. Sem dúvida, Mcdonalds se empenha em levantar o fardo pesado e continua investigando o homem, de carne e osso, como já disse antes, através dos amigos e familiares que têm bastante a dizer.

Bob Marley nasceu em 6 de fevereiro de 1945. No Max, terça 11 de fevereiro, 69 anos depois de seu nascimento, Marley, um dos documentários mais completos sobre a vida de um dos grandes músicos do século XX.

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Ferrugem e Osso, ou as forças e as perdas

por max 8. fevereiro 2014 15:55

 

Alain é arrogante, um bruto, um titã, um lutador. Mas lutador de quê? Alain é como um menino, e apesar de sua situação econômica não ser a melhor, e de repente ter que cuidar de seu filho, embora ele tenha visto em Stéphanie o que é realmente sofrer uma tragédia e ainda assim seguir adiante, em Alain sobrevive certa teimosia que se nega a morrer e que o impede de amadurecer. O que o fará crescer? O que necessita perder? Ferrugem e Osso (De rouille et d'os, 2012) é um filme sobre perdas e crescimentos, dirigido por Jacques Audiard, diretor que deixou o público dos festivais e salas de arte encantado com O Profeta (Un Prophète, 2009), filme sobre um jovem garoto que logo no início sofre a perda de não pertencer a lugar nenhum e é preso, e a partir desse vazio, se mostra com uma mente criminosa mais fria que a de um mafioso.

O Profeta é um filme sobre o dilema da vontade e da liberdade no contexto escravizador da prisão; um filme de crescimento dentro de uma das mais difíceis situações. Em Ferrugem e Osso nos deparamos com uma situação similar. Audiard tem um talento especial para cercar-se de atores jovens e poderosos, e se em O Profeta transformou Tahar Rahim, em Ferrugem e Osso, coloca no elenco principal Matthias Schoenaerts, um jovem artista muito confiável que já havia deixado muito claro que pode ir além em Bullhead (Rundskop, 2011) de Michaël R. Roskam. Em Ferrugem e Osso, Schoenaerts volta a demonstrar essa sua capacidade para interpretar um tipo bruto, físico, prepotente, mas cheio de obscuridade e com certa sensibilidade enigmática a ponto de quebrar. Seu personagem, Alain, não tem trabalho, mas também, de dia e de noite cuida de seu filho de cinco anos, e começa a treinar uns golpes. Alain gosta de dar golpes, ele gosta de lutas de rua, como o kick boxing. É do tipo difícil, orgulhoso, que acredita que o mundo pode ir contra ele, e que, em alguns aspectos, pensa melhor que os outros. Certo dia, trabalhando como segurança em uma boate, ele conhece e resgata de uma situação perigosa Stéphanie, interpretada por Marion Cotillard, talvez, na melhor atuação de sua carreira até o momento (embora esteja muito decadente na interpretação do terceiro filme da trilogia de Batman de Nolan). Stéphanie é uma treinadora de baleias que trabalha em um parque de atrações local. Em alguns momentos, a câmera fica com ela, com sua vida, e somos testemunhas de um grave acidente. O ocorrido na boate foi apenas uma premonição: agora, em pleno espetáculo, ocorrerá o que realmente estava marcado em seu destino. Ela acordará em uma cama de hospital e descobrirá que suas pernas foram amputadas. Talvez se lembrando da pessoa que a protegeu, talvez se vendo como alguém que precisa ser resgatada novamente, Stéphanie se atreve a entrar em contato com Alain. Começam a sair e entre eles surge uma relação, digamos, livre. Eles vão para cama, mas ele sai com outras mulheres e ela sabe. Ela, por outro lado, o acompanha nos treinos de Kick boxing. Algo começa a prender uma ao outro, talvez nela se perceba mais esse crescimento, essa nova forma de olhar o mundo. Alain, ao que parece, continua sendo Alain. Cheio de força, mas essa força talvez seja mal aproveitada. Receberá a lição necessária em algum momento? Sofrerá uma perda como a que Stéphanie sofreu? Através dessa perda terá uma lição definitiva? Isso está por vir. Mas como sabemos, ninguém aprende livre de algo, e só na perda está o crescimento. A tragédia sempre aguarda ao virar a esquina.

Ferrugem e Osso, domingo 9 de fevereiro, no Max.

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