A Caverna dos Sonhos Perdidos, ou as visões de Herzog

por max 25. maio 2012 07:52

 

Werner Herzog sempre me pareceu um visionário, um louco perigoso, um poeta, um místico. A primeira vez que o vi foi em uma entrevista que ele deu em um festival de cinema de Cartagena. Ali estava, com uma camisa colorida, estampada com alegres palmeiras. Tinha algo na mão e falava alegremente. A câmera havia passado por ali e o havia captado. Herzog e outro amigo dele, talvez também alemão, haviam reagido da melhor maneira. Estavam felizes. Pareciam dois bárbaros de outra época, uma dupla de cavaleiros medievais, curtindo um pouco de relax em seu castelo antes de partir para a batalha seguinte, para a seguinte extração de sisos, dentes e tripas.

Sim, Herzog é como um guerreiro de outros tempos. Mas um guerreiro monge, porque ele está muito estreitamente ligado à visão poética, religiosa ou metafísica do mundo. É um buscador, alguém que sempre terá perguntas e que não parará de buscá-las por todo o mundo. Nesse sentido, Werner Herzog é um peregrino que se comporta como um menino, cheio de força, que prefere seguir os caminhos mais difíceis sempre, porque esses são onde realmente se aprende sobre a vida e a alma.

Quando fez Fitzcarraldo (1982), enveredou-se pela selva amazônica e ali fez um enorme barco passar por cima de uma montanha. Era o que fazia o personagem, interpretado por Klaus Kinski (com quem o diretor teve uma dura relação de amizade e ódio) e também o que fazia Herzog durante as mesmas filmagens. Brian Sweeney Fitzgerald pensou em transpor o obstáculo de uma montanha para realizar seu sonho de construir um teatro de ópera no meio da floresta e, para isso, transportou seu barco por cima de uma montanha. Herzog fez o mesmo: passou o barco por cima da montanha, para também cumprir sua meta, seu sonho: fazer um filme magnífico, uma obra-prima. Assim é Herzog, um herói do impossível. Iguais são seus personagens: seres que lutam contra tudo e contra todos, seres que se rebelam contra o mundo, que põem suas ideias sobre a existência lá em cima e que, geralmente, são esmagados no final de suas guerras. Esses perdedores são graciosos buscadores da verdade, espelhos da alma do particular cineasta, destruidor de grandes enigmas. Herzog se aproxima deles, suspeita deles, os pressente, e abre uma fissura por onde entra e descobre. Algo arranca e algo fica em sua alma e na nossa. Algo que nos faz mais humanos, um pouco mais inseguros do nosso lugar e nosso papel no mundo, desse mundo sobre o qual nos contam e querem nos impor. Herzog, como todo buscador, como visionário, quer olhar porque no olhar está a fonte de sua mística, de sua magia. Essa visão que põe o dedo e cava nos lugares onde poucos estiveram, lugares de sua vida e morte, de faíscas de alguma verdade esquecida. Dali talvez tenham nascido seu interesse, nos últimos anos, por documentários.

Um de seus trabalhos recentes mais impressionantes é Encounters at the End of the World (2007), no qual nos mostra paisagens fascinantes da Antártida, nunca vistas, ou O Homem Urso (Grizzly Man, 2005), onde o mesmo Herzog parecia desafiar as imagens e as delirantes ideias do falecido Timothy Treadwell, aquele homem que pensava ser a Diane Fossey dos ursos. Treadwell gravou, durante anos, suas incursões por florestas, onde esteve muitas vezes absolutamente sozinho e falando para uma câmera, sobre seu contato com os ursos e sobre suas ideias de como é a existência, até o dia em que os ursos o comeram.

Em 2011, Herzog enveredou-se pelas profundezas da alma dos homens, onde os sonhos de um passado remoto, como disse o mesmo Herzog, foram congelados. Estamos falando de A Caverna dos Sonhos Perdidos (The Cave Of Forgotten Dreams), documentário que permitiu ao diretor explorar e capturar o interior das cavernas Chauvet, ao sul da França.

Descobertas apenas em 1994, as cavernas de Chauvet guardam um registro de mais de 400 pinturas rupestres de 32 mil anos atrás, as mais antigas descobertas até o momento. O visionário Herzog passeia através de suas galerias, que já são por si só mostras de arte da natureza, e questiona, com uma câmera 3D, o enigma do que ele vê.

Tal como já disse o mesmo cineasta, ao ver aquilo, ao contemplar tal cenário, algo nos deixa maravilhados e algo nos faz buscar não sabemos quais respostas nem quais interpretações. Seja lá qual for a conclusão a que cheguemos, aponta ele mesmo, estaremos equivocados mas, sem dúvida, sempre entenderemos que ali há algo que se relaciona, em um nível muito profundo, conosco.

Herzog, protagonizando seu próprio trabalho, explora este mundo muito antigo e continua fazendo perguntas e maravilhando-se com as pinturas rupestres. Tocando sempre, tocando e mostrando aquele lugar ancestral que muitos poucos viram e que, em seu silêncio, nos falam de nós mesmos.

A Caverna dos Sonhos Perdidos, de Werner Herzog, neste domingo, 27 de maio. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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