Triângulo Amoroso, ou o tédio, o destino quântico e o amor

por max 24. janeiro 2013 08:26

 

O tédio é o fundo da vida, e o tédio foi quem inventou os jogos, as distrações, os livros e o amor.

Miguel de Unamuno

 

Do tédio nasce o desespero. Da doença nasce o desespero. Ou o despertar, em ambos os casos. Por que não o despertar?! Não sei se o principal de Tom Tykwer em Triângulo Amoroso (3, 2010) é o tema da infidelidade e do amor moderno, ou como queiram chamá-lo. Não é por acaso que Tykwer tenha se associado, na direção, aos irmãos Wachoski para realizar A Viagem (Cloud Atlas, 2013) – estes dois cineastas basearam sua célebre trilogia Matrix no despertar. Se Neo não tivesse despertado, e se não tivesse existido ninguém que o despertasse, então não haveria história, não existiria evolução e revolução no filme. Por sua vez, Tykwer gosta dos planos temporais, dos paralelismos, dos jogos quânticos, à la Krzysztof Kieslowski. Em seu trabalho, se misturam o destino, a casualidade, ou melhor, a casualidade com o amor. Talvez tenha algo a ver esta ideia do destino e do amor com aquele famoso mito da separação do andrógino sobre o qual nos fala Platão em O Banquete. Há algo ali, no fundo de nossas almas, no segredo do quântico que nos leva à busca incessante da unidade perdida. Mas não se trata somente de uma busca, e sim também de um movimento isolado, com vida própria, que leva ao encontro e aos desencontros, essa espécie de escrita velada que os amantes não conhecem. Ali é onde Twyker gosta de estar, nesse vai e vem que sacode os que amam, manuseando esse tecido, vendo-o a partir da parte de cima, do ponto de vista de quem comanda as marionetes. Nada para, nada acaba indo para seu próprio lugar nunca, porque o movimento nos alerta que estamos vivos, e o estático é a morte. Os corpos precisam mover-se uns com os outros, precisam sentir-se fundidos nessa ânsia do perpetuar da vida, sobre o que falava Georges Bataille em O Erótico. Essa fusão é glória, êxtase, é a própria morte inclusive, a morte que é a gota d´água de todas as dores, e, por sua vez, o prazer máximo. O erótico é movimento, é busca. A partir daí é que, em Triângulo Amoroso, temos esse casal bem alemão, de classe média, muito bem acomodado e profissional, que se encontra à beira de uma crise: 20 anos são anos demais de quietude. Anos demais, nos quais o sexo foi se apagando. 20 anos que foram separando-os paulatinamente. É aí que surge o terceiro, que é o mesmo para Simón (Sebastian Schipper) e para Hanna (Sophie Rois). Esse terceiro é Adam (Devid Striesow), um cientista que trabalha com células e se transforma nessa espécie de representação humana do movimento existencial e quântico. Adam será a tentação, mas também o mecanismo condutor e andrógino que os despertará, que os arremessará ao centro de sua crise, de seus 40 anos, de suas verdades como casal. O final fica a cargo do espectador: Tywker rompe essa ideia das duas almas separadas por causa do tempo? É possível a entrada de uma terceira pessoa nas relações? Ou Adam é apenas um catalizador do casal?

O filme segue, sem dúvida, as obsessões e os temas de Tom Tywker. Mas também percorre um caminho, às vezes, meio pretensioso em seus diálogos e carente de ritmo, que foi o que fascinou em Corra Lola, Corra (Lola Rennt, 1998). Mas isto não quer dizer que o ritmo do filme seja inapropriado. Triângulo Amoroso é um trabalho muito cuidadoso, de uma estética deliciosa, que ingressa nestes jogos do destino entrelaçados com as crises do amor, com atuações fortes, cheias de coragem. E coragem é o que não falta no filme.

Triângulo Amoroso, dirigido por Tom Tykwer, nesta sexta-feira, 25 de janeiro. Destino, amor, sexo, morte. O que você vê, quando vê o Max?

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Dupla rodada de Tom Tykwer, as coincidências e o destino

por max 9. outubro 2012 03:51

 

O diretor alemão Tom Tykwer é fascinado pelo destino, pelas coincidências e mundos paralelos. Ele já disse que o primeiro filme que marcou sua vida foi Peter Pan, da Disney. Uma história que transcorre, sem dúvida, em um mundo totalmente paralelo: em Neverland, a Terra do Nunca.

A Viagem (Cloud Atlas, 2012), o mais recente projeto de Tykwer, ao lado dos diretores Andy e Lana Wachowski, observa como as ações individuais de cada vida causam impacto umas nas outras no passado, no presente e no futuro. Claro, o filme que o alçou à fama: Corra Lola, Corra (Lola Rennt, 1998) gira, do começo ao fim, em torno de uma ideia: é uma produção feita a base de exercícios de estilo, mas, sobretudo, de exercícios narrativo-quânticos. Lola transita, caminha por coincidências, pequenos eventos, ligeiros desvios, que produzem narrativas variantes, universos múltiplos paralelos, a partir de onde Lola terá que seguir correndo, teimosa e incansável, com o único objetivo de salvar seu amor.

 

 

Em A Princesa e o Guerreiro (The Princess And The Warrior, 2000), talvez, até o momento, seu longa-metragem mais perfeito e que pode ser considerado mais "de autor", Tykwer volta-se para suas obsessões: universos paralelos, destinos, coincidências, eventos pequeníssimos que marcam a vida, amores perdidos, delinquência "justificada" e, inclusive, Franka Potente.

Tudo isso que vimos em seu filme anterior está também em A Princesa e o Guerreiro, mas, desta vez, o tema épico é contado de uma maneira intimista, delicada, surrealista em alguns momentos, dando lugar a uma peça cinematográfica que não se repete e que, ao mesmo tempo, é única.

Franka Potente (ela é Sissi, aquela princesa real de vida trágica) e Benno Fürmann se encarregam de colocar as coincidências existenciais que resultam mais proverbiais que aleatórias nesta história que poderia ter tido a mesma correria de Corra Lola, Corra, mas que, o cineasta, com muita intuição artística, deu uma guinada do território do melodrama surpreendente, carregado de suspense, loucura e, se me permite o termo, delicadas abjeções.

Nesta quinta-feira, o Max apresenta uma dupla rodada de Tom Tywker, mais precisamente com dois desses filmes sobre os quais falamos e que retratam de forma enfática seus temas e obsessões: A Princesa e o Guerreiro e Corra Lola, Corra.

São dois filmes fundamentais de um diretor moderno, afiado e criativo, um atrás do outro, nesta quinta-feira. E só poderia ser no Max.

Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

Corra Lola Corra, ou os universos paralelos múltiplos

por max 19. janeiro 2012 13:12

 

Universo 1

O filme Corra Lola Corra (Lola Rennt, 1998), dirigido pelo cineasta alemão Tom Tykwer, pode ser considerado um interessante exercício de estilo, cheio de velocidade e propostas de argumentos que lembram os famosos Exercícios de Estilo, de Raymond Queneau, um livro constituído de cem textos sobre um mesmo episódio insignificante (um rápido instante de uma viagem de ônibus onde um jovem se queixa e algo e na sequência é visto em uma praça), contado sempre de maneira diferente, com diferentes estilos... em universos distintos?

 

Universo 2

O filme Corra Lola Corra (Lola Rennt, 1998), dirigido pelo cineasta alemão Tom Tykwer, pode ser considerado uma exploração da teoria dos universos múltiplos. Explico melhor: segundo a física quântica, quando uma partícula não é observada, seus movimentos podem ser antecipados, ou profetizados, com exatidão matemática. Ao contrário, quando é observada, a partícula se comporta de maneira irregular. Existe, para explicar tal irregularidade, a teoria dos universos múltiplos (ou paralelos). Segundo esta teoria, diante de uma possibilidade física, o universo se divide, explorando a realização de todas essas possibilidades, ou seja, é o mesmo que dizer que o universo cria outros universos paralelos. É o mesmo que dizer que se um homem escapa de ser atropelado em um universo, em outro esse mesmo homem será atropelado; em outro, receberá um arranhão; em outro, insultará o motorista do carro; e em outro, não será atropelado, mas morrerá por causa de infarto em razão do susto. Certeza é que, segundo esta teoria matematicamente comprovada por cientistas de Oxford, existem outros universos criados a partir de possibilidades de acontecimentos, o que explicaria a razão das partículas se moverem de forma irregular, isso neste e em todos os outros universos. Corra Lola Corra é uma magnífica exploração dessa teoria e suas possibilidades. Uma ação que, no decorrer do filme (e da história), dura 20 minutos, se expande e rende outras possibilidades do mesmo momento, até formar o longa-metragem inteiro.

 

Universo 3

O filme Corra Lola Corra (Lola Rennt, 1998), dirigido pelo cineasta alemão Tom Tykwer, inspirou em mim a seguinte frase para o amor nos universos paralelos: "o beijo que não me destes hoje porque dissestes que não me amavas, sim aconteceu em outro universo, onde sim me beijastes, onde sim me amastes."

 

Universo 4

O filme Corra Lola Corra (Lola Rennt, 1998), dirigido pelo cineasta alemão Tom Tykwer, levou alguém a escrever esta frase sobre sua protagonista, Franka Potente. Esse alguém disse: "Francamente, potente Franka".

 

Universo 5

O filme Corra Lola Corra (Lola Rennt, 1998), dirigido pelo cineasta alemão Tom Tykwer, também inspirou este mini-conto: "Em outro universo, Lola não faz nada, fuma um cigarro e assiste, em um cinema, o filme que se chama Corra Franka Corra."

 

Universo Max

O filme Corra Lola Corra (Lola Rennt, 1998), dirigido pelo cineasta alemão Tom Tykwer, nesta sexta-feira, 20 de janeiro, no Max.

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