A Minha Alegria, ou os rastros do mal

por max 9. agosto 2012 07:56

 

Não se erradica a presença do mal da noite para o dia, muito menos se o mal esteve presente por décadas, impregnando, manchando os espíritos. O que fica, uma vez que a estrutura do mal se vai, é sua presença sutil no fundo da alma dos feridos. Um país não se recupera da noite para o dia da loucura do poder, porque em cada um dos cidadãos ficam as feridas, a desconfiança, a miséria.

O diretor ucraniano Sergei Loznitsa apresenta A Minha Alegria (My Joy, 2010), filme em que se mostram as mazelas do mal soviético, que corroeu (e que continua corroendo) a alma dos homens; uma crítica aos poderes, aos sistemas de governo submersos em suas próprias misérias. A Minha Alegria, acredito nisso, é mais um espelho do que sobrou de uma etapa fortemente opressora do que uma crítica ao sistema capitalista, mas, mesmo assim, também faz críticas ao capitalismo, pois deixa muito claro que, no presente, estão vivendo uma experiência igual, ou até pior.

A Minha Alegria é um filme com fortes referências de road movie, que desemboca em uma história própria das alucinações radicais de David Lynch. O pior é que não são alucinações, pois estamos diante de uma representação do estado das coisas.

Um homem, Georgy (Viktor Nemets), se lança na estrada conduzindo um caminhão. No caminho, o personagem se encontra com a obscuridade, a corrupção e a miséria humana; policiais corruptos, camponeses cruéis, uma prostituta menor de idade. A isto se somará a perda de memória do personagem, de quem conhecemos muito pouco, tão pouco como ele se conhecerá, e ficará somente com a estranha certeza de haver matado alguém, talvez, quem sabe.

O tema da memória é fundamental. À memória se contrapõe o esquecimento; esse esquecimento, o cineasta parece dizer, condena os seres humanos, os seus conterrâneos. O esquecimento do passado nos faz permanecer parados, e nos leva a continuar vivendo os mesmos horrores do mal, desse mal que é como uma ferida que nunca termina de fechar e que não fechará se não fizermos da memória uma ferramenta útil para o futuro.

A Minha Alegria, domingo, 12 de agosto. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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